Olá meus caros, hoje vou falar sobre uma doença que vem causando a morte de vários animais marinhos pelo mundo todo, afetando principalmente as tartarugas-verde (Chelonias mydas). Estou criando este post porque a leitora e fã do EQB Socorro Barros se interessou pela matéria que publiquei na Fan Page do site sobre as tartarugas-verde afetadas por esta doença, solicitando mais informações.
 
tartaruga-verde (Chelonias mydas) com Fibropapilomatose
 
Bom mas o que é esta doença, será um câncer causado pela poluição?
Não, não. Na verdade a fibropapilomatose (FP) é uma doença infecciosa que ocorre principalmente em tartarugas-verdes (Chelonia mydas), mas também em outras espécies ao redor do mundo. Foi primeiramente documentada como uma doença rara, no Havaí em 1958, mas a sua prevalência tem aumentado drasticamente nessas últimas décadas. Acredita-se que é uma doença causada por um agente viral (herpevírus). O meio de transmissão ainda é desconhecido, mas devido a alta prevalência da doença em ambientes costeiros, perto de atividades humanas, como agricultura e atividades industriais, acredita-se que a poluição do ambiente marinho facilite a expressão da doença. Esse resumo apresenta informações sobre a FP, proporcionando o melhor entendimento da doença.
 
O interessante desta doença é o porque que ela afeta muito mais as tartarugas verdes, sendo que as tartarugas marinhas habitam diversas regiões do mundo. Das sete espécies de tartarugas existentes nos oceanos, cinco podem ser encontradas nos mares brasileiros: Caretta caretta (tartaruga cabeçuda ou amarela); Chelonia mydas; Eretmochelys imbricata (tartaruga de pente); Lepidochelys olivacea (tartaruga oliva) e Dermochelys coriacea (tartaruga de couro ou gigante) (Robert, 1986; Santos, 1994).
 
No Brasil, a maior população de tartarugas marinhas pertence à espécie C. mydas e se encontra na ilha de
Trindade (Filippini, 1988). Algumas espécies estão ameaçadas de extinção devido à pesca, predação de ovos e poluição do habitat natural.
 
Características da Tartaruga-verde
A tartaruga verde recebe esse nome devido à presença das quatro placas laterais de cor verde ou verde-acinzentado escuro, é uma tartaruga marinha da família Cheloniidae e o único membro do género Chelonia (Tamar). Chega a atingir 139 cm de comprimento curvado da carapaça e 300 kg de peso, representando, deste modo, a maior tartaruga marinha de carapaça rígida. As características que a distinguem das outras tartarugas são a sua cabeça pequena e redonda e a carapaça sem rugosidades.
 
Sua alimentação varia consideravelmente durante o ciclo de vida: até atingirem 30 cm de comprimento, alimentam-se essencialmente de crustáceos, insetos aquáticos, ervas marinhas e algas; acima de 30 cm, comem principalmente algas; é a única tartaruga marinha que é estritamente herbívora em sua fase adulta (Tamar).
 
Fibropapilomatose
A fibropapilomatose (FP) é uma doença caracterizada por causar múltiplos tumores na epiderme (alcançando desde 0,1 cm até 30 cm de diâmetro) que afetam principalmente tartarugas verdes jovens e imaturas (HERBST et al., 1995). Esses tumores são freqüentemente encontrados ao redor do pescoço, olhos, boca, nadadeira e/ou cavidade oral, regiões inguinal e axiliar (LU et al., 1999). Os tumores surgem a partir de uma proliferação das células epidérmicas (papilomas), fibroblastos dérmicos (fibromas), ou ambos (fibropapilomas) (SMITH AND COATES, 1938).
 
Já foram descrita a presença de fibromas em órgãos internos, como pulmão, fígado, rins e trato gastrointestinal, provocando alterações na flutuabilidade, pressão, parênquima, necrose do fígado, insuficiência renal e por fim obstrução intestinal (HERBST, 1994). 
 
A FP também afeta atividades diárias desses animais infectados, como alimentação, locomoção ou visão. Tartarugas em estágio avançado da doença apresentam fraqueza, anemia regenerativa, cegueira, (MATUSHIMA et al., 2001), hipoproteinemia, elevação de enzimas hepáticas (DAHME & WEISS, 1989), diminuição progressiva da contagem de linfócitos, basófilos e eosinófilos e aumento progressivo de heterófilos e monócitos (MATUSHIMA et al., 2001).
 
A morfologia dos tumores varia de liso a semelhante à couve-flor, com algumas projeções pontiagudas pequenas variando de tamanho sendo que os maiores podem apresentar ulcerações e tecido necrótico. A pigmentação varia chegando a apresentar cor branca, cor-de-rosa, vermelha, cinzenta, roxa ou preta (RHODES, 2005). (Figura abaixo):
 
Foto: Japonegro
 
Como você pode ver na figura, esses tumores estão em forma de couve-flor, ou seja a forma que causa mais danos às tartarugas-verdes. 
 
No Brasil, o primeiro registro da doença foi no estado do Espírito Santo em 1986, e desde então ocorrências foram frequentemente observadas nas áreas de alimentação; os registros pareciam indicar um aumento da ocorrência: 3,2% em 1997; 10,6% em 1998; 10,7% em 1999 e 12,4% em 2000. (BAPTISTOTTE, 2005).
 
Apesar da tartaruga-verde ser a mais afetada, estudos recentes têm registrado a doença em outras espécies, incluindo tartaruga-olivacea (Lepidochelys olivacea ), tartaruga-de-kemp (Lepidochelys kempii )e a tartaruga-comum (Caretta caretta). Embora muitos fatores foram suspeitos de causar a FP, os últimos relatos incriminam o herpesvírus (HERBST et al., 1998). 
 
 
Etiologia (causa da doença)
A FP está associada a um herpevírus, um herpevirus associado a fibropapilomatose quelóide (Chelonid Fibropapilomatose – Associated Herpevirus -CPHV), que está presente em todos os tumores de ocorrência natural e induzidos experimentalmente com filtrados acelulares de tumor. (LACKOVICH et al., 1999 e HERBST et al., 1999).
 
Tratamento
O tratamento constitui-se na retirada cirúrgica dos tumores, felizmente a taxa de sobrevivência de tartarugas verdes após a cirurgia está acima de 90 por cento (MATUSHIMA et al, 2001). 
 
Conclusão 
A fibropapilomatose é uma doença caracteriza por múltiplos tumores nas regiões de pele macia. Afeta principalmente tartarugas-verdes juvenis,  que são importantes para a reprodução. Esses tumores afetam atividades diárias dessas tartarugas, como alimentação, respiração, visão e a locomoção. Tartarugas em estágios mais avançados da doença apresentam fibromas em órgãos viscerais afetando o funcionamento dos 
mesmos, ocasionando a morte. Além disso, as tartarugas que apresentam essa doença ficam mais suscetíveis a predadores e as linhas de pesca. 
 
Acredita-se que a poluição ao ambiente tem um importante papel no desenvolvimento da doença, pois tartarugas que estão presentes na costa desenvolvem mais a doença do que os indivíduos que vivem em água mais profundas.
 
Agora, só resta saber a associação entre a poluição e o Herpevírus CPHV para determinar definitivamente o porque das tartarugas-verdes serem tão afetadas assim.
  • Referências:
  • ROBERT, T. 1986. Biologia dos vertebrados. 5ª ed., São Paulo, Roca, 508 p.
  • SANTOS, E. 1994. Zoologia brasílica. Belo Horizonte, Vila Rica, 263 p.
  • FILIPPINI, A. 1988. Ilha da Trindade. Ciências Hoje, 45:28-35.
  • HERBST, L.H.; KLEIN P.A. Green turtle fibropapillomatosis: Challenges to assessing the role of environmental cofactors, 1995.
  • LU Y; AGUIRRE A.A; WORK T.M.;BALAZS G.H.; NERURKAR V.R.; YANAGIHARA R. Identification of a small, naked virus in tumor-like aggregates incell lines derived from a green turtle, Chelonia mydas, with fibropapillomas, 1999.
  • SMITH, G. M., AND COATES C. W. Fibroepithelial growths of the skin in large marine turtles, Chelonia mydas (Linnaeus). Zoologica, NY 23: 93–98, 1938.
  • MATUSHIMA, E.R; LONGATTO FILHO , A.;DI LORETTO , C.;KANAMURA, C.T.; SINHORINI, I.L.;GALLO, B.;BAPTISTOLLE, C. Cutaneous papillomas of green turtles: a morphological, ultrastructural and immunohistochemical study in Brazilian specimens, 2001.
  • DAHME, E; WEISS, E. Anatomia Patológica Especial Veterinária Zaragoza (Espanha): ed Acribia, p 133-134, 1989.
  • RHODES, K.H, Dermatologia de Pequenos Animais Consulta em 5 minutos Rio de Janeiro: ed Revinter, p, 357-360, 2002.
  • BAPTISTOTTE,C. Caracterização espacial e temporal da fibropapilomatose em tartarugas marinhas da costa brasileira. Tese (Doutorado em Ecologia Aplicada) – Universidade de São Paulo – Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz“ , Piracicaba, 2007.
  • HERBST, L.H; GREINER, E.C.; EHRHART, L.M.; BAGLEY, D.A.; and KLEIN, P.A. Serological association between spirorchidiasis, herpesvirus infection, and fibropapillomatosis in green turtle from Florida, 1998.
  • HERBST, L.H.; E.R. JACOBSON; P.A. KLEIN; G.H. BALAZS; R. MORETTI; T. BROWN, and J.P. SUNDBER. Comparative pathology and pathogenesis of spontaneous and experimentally induce fibropapillomatosis of green turtles (Chelonia mydas). Vet. Pathol. 36:551-564, 1999.
  • LACKVICH, J.K., D.R. BROWN, B.L. HOMER, R.L. GARBER, D.R. MADER, R.H. MORETTI, A.D. 
  • PATTERSON, L.H. HERBST, J. Oros, E.R. JACOBSON. S.S. CURRY, and P.A. KLEIN. Association of herpesvirus with fibropapillomatosis of the green turtle Chelonia mydas and the loggerhead turtle Caretta caretta in Florida. Dis. Aquat. Organ. 37:89-97, 1999.
E ai, o que achou desta terrível doença, Socorro? Espero que tenha te ajudado!
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Guellity Marcel
Biólogo, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações e comunidades, sustentabilidade e mudanças climáticas, mas sua maior paixão são os negócios sociais e ambientalmente responsáveis. Atualmente está trabalhando no desenvolvimento de uma empresa para solucionar problemas socioambientais em larga escala.