Você não leu errado, não. É isso mesmo. Neste post vou mostrar à vocês, com base em vários artigos científicos, porque eu sou à favor da caça legalizada e bem estruturada e como ela ainda auxilia na conservação da biodiversidade. 

Eu sou biólogo e meu objetivo como futuro pesquisador não é abraçar todos os animais e defendê-los, como muitos pensam sobre o biólogo conservacionista. Eu quero, assim como muitos outros pesquisadores fazem, provar que é possível conciliar atividades humanas com a preservação da biodiversidade. Uma das grandes atividades humanas realizadas desde nossos ancestrais e até hoje é muito comum em vários países, é a caça de animais selvagens.

Muitos podem julgam isso um fato cruel, desnecessário e horrível, tendo em vista que ninguém precisa caçar para sobreviver hoje em dia (exceto povos indígenas de regiões isoladas). Porém, a caça muitas vezes pode ser praticada como um esporte ou, ainda, é algo que pertence a diversas gerações e está fixa em muitas famílias, principalmente de moradores rurais. Não importa o tipo da caça, seja até mesmo para subsistência, ela ajuda na conservação das próprias espécies caçadas, desde que regulamentada e estudada, como ocorre em vários países da Europa, nos Estados Unidos e Canadá.


Este post vai ser baseado no manual elaborado pela IUCN – (União Internacional para a Conservação da Natureza) com o título “IUCN SSC Princípios Orientadores em Troféus de Caça como uma ferramenta para a criação de incentivos à conservação” no qual, conforme o próprio título indica, vem relatar as atividades de caça e suas contribuições como ferramentas na conservação de espécies. A sigla SSC é corresponde à Comissão de Sobrevivência de Espécies (Species Survival Commission).

Este manual diz que há muito tempo a IUCN reconheceu que o uso sustentável e inteligente da vida selvagem pode contribuir para a conservação, pois, ele gera benefícios sociais e econômicos derivados do uso das espécies, o que acaba fornecendo incentivos para pessoas que se beneficiam da caça atuarem na conservação das espécies-alvo em seus habitats naturais.

No manual também constam informações sobre o Troféu de Caça. Esta modalidade de caça, segundo este documento, muitas vezes é uma atividade contenciosa com pessoas apoiando ou se opondo a ela em uma variedade de bases biológicas, econômicas, ideológicas ou culturais. Ainda assim, ela é uma forma de utilização dos animais selvagens que, quando bem gerida, pode ajudar na promoção dos objetivos de conservação, gerando receitas e incentivos econômicos para a gestão e conservação  das espécies-alvo e seu habitat, bem como ainda apoia as comunidades locais em suas subsistências.


No entanto, se mal administrada, pode deixar de gerar esses benefícios. Apesar de uma grande variedade de espécies (muitas das quais são comuns e seguras) serem caçadas como troféus, algumas espécies que são raras ou ameaçadas podem ser incluídas no troféu de caça, como parte de estratégias de conservação específicas, como por exemplo, o guepardo (Acinonyx jubatus), o rinoceronte preto na África do Sul e o antílope conhecido como “Straight-Horned Markhor” (Capra falconeri megaceros) no Vale Torghar do Paquistão, os quais são espécies listadas no Anexo I da CITES. 

A CITES foi uma Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e da Flora Selvagens muito importante que auxiliou nos estudos para determinar quais espécies poderiam ser caçadas  ou não como troféu.

Na Europa e América do norte e em diversos países em desenvolvimento, o troféu de caça ocorre tranquilamente pois o gerenciamento da vida selvagem é muito desenvolvido e todos os anos centenas de caçadores pagam boas quantias em dinheiro para ter tais oportunidades de caça. Essas caçadas geralmente envolvem um número pequeno de espécies, que são de grande valor, sendo baixos os valores de impacto sobre as mesmas.

Em vários casos o troféu de caça é um componente importante da conservação pois atua com base nas comunidades locais organizadas, fazendo com que a responsabilidade sobre a gestão dos recursos naturais e a conservação das espécies seja competência das comunidades ao invés de ser algo restrito aos órgãos ambientais do governo. Entendendo esse contexto entre as comunidades e a caça, podemos ter uma compreensão do seu potencial para beneficiar a conservação. Em muitos locais do mundo espécies vivem em áreas além das áreas protegidas, justamente porque há um controle rígido na caça, o que não as prejudica (como as várias espécies de cervídeos que são comumente encontradas em várias cidades dos EUA).


Em outras áreas os animais convivem próximos de humanos e acabam até mesmo causando danos porque eles afetam de diversas formas os meios de subsistência no qual as populações dependem. Eles podem impor custos graves sobre a população local por meio de danos físicos, danos às colheitas e até mesmo competindo com o gado por pastagens. Nesses locais, muitos animais selvagens acabam sendo mortos e utilizados como alimento e também na fabricação de vestes com uso de suas peles, principalmente nas regiões mais frias. Porém, esse problema ocorre devido ao fato dos habitats naturais dos animais estarem degradados ou até mesmo perdidos muitas vezes por não haverem outros locais possíveis para produção de alimento nas comunidades.

É nesse momento que entra a atuação de ongs e instituições como a IUCN para conciliar a sobrevivência das espécies animais com a sobrevivência dos humanos, onde ambas podem partilhar de uma mesma área, mas com um devido manejo adequado, incentivando o apoio das populações para manterem a vida selvagem, investindo em estruturas e técnicas diferenciadas para melhor produção de alimentos, bem como investindo no monitoramento e pesquisas possibilitando a proteção do habitat. Assim, muitas vezes o troféu de caça gera muito mais lucro paras comunidades do que o valor da própria terra que usam para produzir e vender seus produtos, onde ainda ganham mais com a vinda de turistas.


Porém, quando mal gerido, o troféu de caça pode ter impactos ecológicos negativos, incluindo alterações nas idades e nas proporções sexuais dos indivíduos, causando perturbações sociais, aumentando os efeitos genéticos deletérios e, em casos extremos, causando declínio da população. Pode ser difícil garantir que os benefícios da caça gerem maior lucro para as comunidades do que a exploração da terra e outros recursos naturais quando há perdas por caça irregular. Por exemplo, um caçador irregular pode levar uma espécie à extinção local simplesmente por matar apenas alguns indivíduos da população. Sabe porque? Se essa espécie caçada possui diferenças significativas na proporção de machos e fêmeas (um sexo é muito mais abundante na população do que o outro), e o caçador mata exatamente os indivíduos do sexo menos abundante, só restarão indivíduos de um sexo e a população local estará extinta, pois, não haverá mais reprodução. Esses casos acontecem muito em lugares onde a caça é ilegal. Se o caçador não conhecer muito bem a espécie caçada, ele vai prejudicá-la. Por isso, em lugares onde a caça é regulamentada, os caçadores sabem exatamente quais indivíduos podem ou não caçar. Nesse caso, o trabalho das ongs e pesquisadores conservacionistas é fundamental.

O troféu de caça pode servir como uma ferramenta de conservação quando:
1 – Tiver como premissa as avaliações adequadas de recursos e/ou monitoramento dos índices de caça, sobre a qual quotas específicas e planos de caça podem ser estabelecidos através de um processo colaborativo. Idealmente, esse processo devem (quando pertinente) incluir as comunidades locais e em conjunto com o conhecimento local/indígena.

Essas avaliações de recursos (exemplos podem incluir avistamentos ou índices de desempenho da população, tais como freqüências de observação, contagem de indivíduos) ou índices de caça (exemplos podem incluir tamanho, idade do animal, taxas de sucesso da caça e captura por esforço de caça) são objetivas, bem documentadas, e usadas melhor junto da ciência e tecnologia viáveis e apropriadas dadas as circunstâncias e os recursos disponíveis;

2 – Envolver o gerenciamento adaptativo de quotas de caça e planos de acordo com os resultados das avaliações de recursos e/ou monitoramento de índices, garantindo que as quotas sejam ajustadas de acordo com as mudanças na base de recursos (causadas por mudanças ecológicas, padrões climáticos, ou impactos antrópicos, incluindo a caça);

3 – É baseado em leis, regulamentos e quotas (de preferência estabelecida com a entrada local) que são transparentes e claras, e são periodicamente revisadas ​​e atualizadas;

4 – Monitora atividades de caça para verificar que as cotas e restrições de sexo/idade dos animais abatidos estão sendo atendidas;

5 – Produz documentação confiável e periódica da sua sustentabilidade biológica e benefícios de conservação (se isto não for já produzido pelos mecanismos de comunicação).

A intenção da SSC é que esses princípios possam servir para ajudar as autoridades responsáveis ​​pela política, direito e planejamento nacional e subnacional, gestores responsáveis ​​a nível local, e as comunidades locais, na concepção e implementação de programas de troféu de caça, onde a conservação da biodiversidade e a partilha equitativa dos recursos naturais são objetivos.

Leopardo das neves se alimentando de um antílope

Por exemplo, no Tajiquistão, um membro pesquisador da IUCN estava estudando o Leopardo-das-neves e conseguiu observar que a caça de troféus regulamentada e monitorada conforme todos os critérios citados acima, pôde contribuir para a conservação desta espécie. Porém a espécie em si não era caçada e sim as suas presas antílopes mais comuns (de forma irregular), por isso o elevado grau de ameaça do felino. Somente com a caça de troféu regulamentada para as espécies, principalmente as presas do leopardo das neves, é que seu status de conservação começou a mudar e a mortalidade deste animal por produtores de caprinos locais foi reduzida, tendo em vista que a oferta de alimento em seu habitat tinha aumentado por decorrência da caça regularizada e o felino não rondava mais as propriedades rurais em busca das criações.

Viu como não tem nada de estranho em legalizar a caça? Se fossem vocês biólogos nesse ambiente, iriam pensar a mesma coisa que os biólogos pensaram por lá? Iriam liberar a caça para várias espécies, incluindo as presas do felino? Creio que a maioria dos biólogos e futuros biólogos conservacionistas não pensariam assim, justamente porque desde quando entramos no curso, nós temos essa ideia de que devemos ser 100% contra qualquer atividade que envolva a exploração de fauna e flora silvestre.

Mas não é assim que deve ser. É por isso que existe o tão falado desenvolvimento sustentável, ou, a sustentabilidade. Se fosse assim, se a caça fosse totalmente prejudicial, porque nos Estados Unidos, Canadá e diversos outros países onde a caça é legalizada, estes animais abaixo são caçados tranquilamente e nunca houveram problemas com declínios populacionais?





Existem ainda dezenas de outras espécies caçadas de forma totalmente regulamentada e estudada. Eu olho este urso e tenho dó dele, mas ao mesmo tempo não sinto muita coisa, porque eu sei que as atividades de caça nesses países são criteriosamente estudadas há mais de 100 anos. Os pesquisadores conservacionistas se preocupam também, assim como nós, mas entre barrar totalmente a caça e ter milhares de caçadores ilegais sem gerar renda alguma e muito menos dar valor as espécies, é muito mais fácil regulamentar a caça, estudar as populações, acompanhar todas as temporadas de caça, e ainda ter valores econômicos envolvidos. Assim, as espécies-alvo em si se tornam valorizadas e as comunidades do entorno também.

Olhe como a caça contribui significativamente na economia dos EUA:


Imagine quantas pessoas que possuem pequenas propriedades, ou comunidades de pescadores, entre outras, poderiam ter uma renda adequada oriunda da caça aqui no país. Obtendo renda, logicamente iriam investir no negócio, conservando os habitats naturais, assim como é feito nos EUA, um dos países que mais praticam a caça regulamentada e movimenta bilhões!

É simples entender os benefícios da caça, pois como eu já disse em vários outros posts, para conservarmos a biodiversidade, sempre devemos trabalhar visando o lucro das pessoas que abrigam animais em suas propriedades, como por exemplo os fazendeiros. Aumentando seus lucros, os proprietários rurais trabalhariam e investiriam na conservação da biodiversidade de suas propriedades, investiriam em clubes de caça profissional, em pousadas, hoteis, plantio de árvores, o que consequentemente geraria mais empregos, valorizaria os estados onde existissem pontos de caça, as cidades receberiam turistas de vários outros estados, etc. Aqui no Brasil, onde existem milhares de fazendas com mais de 10.000 hectares e outras muito maiores, a atividade de caça regulamentada poderia ser uma grande contribuição para a conservação dos habitats e inclusive um incentivo para que os proprietários rurais recuperassem suas áreas desmatadas.

É muito melhor investir na caça do que falar “não pode caçar” e não fiscalizar, como ocorre aqui.

Recomendo a leitura destes posts para entender mais sobre os benefícios da caça regulamentada na conservação da biodiversidade:


Espero que tenham entendido a mensagem e que passem agora a ver como ser flexível e buscar entender o lado das pessoas que praticam a caça pode ser muito melhor, do que simplesmente ser contra a caça e tentar proteger todas as espécies deixando de lado estas pessoas que podem nos ajudar muito na conservação da biodiversidade. É lógico, cada ecossistema tem suas características e justamente por isso, para a caça ser implementada, muitos estudos devem ser feitos. Não podemos jamais aplicar os planos de caça de outros países aqui no Brasil. Se um dia quisermos liberar a caça de algumas espécies, muitos anos de estudos deverão ser feitos. Acredito que se começássemos hoje um estudo para implementar a caça no Brasil (um estudo de verdade, sério, detalhado e criterioso), a caça só iniciaria no mínimo daqui umas duas décadas.