Quando uma pessoa morre de câncer, o culpado não é geralmente o tumor original, mas sim as células cancerosas que se espalham por todo o corpo e replicam em órgãos distantes, um processo chamado metástase. Os pesquisadores sabem há muito tempo que as células cancerosas são capazes de evitar a detecção imune, alterando os açúcares em suas superfícies. Eles até mesmo produziram uma droga para prevenir tais alterações no açúcar das células cancerígenas, mas ela interfere nos açucares das células normais, com resultados letais em animais. Agora, pesquisadores holandeses relatam que empacotaram o fármaco em nanopartículas destinadas exclusivamente às células cancerosas, e eles mostraram que esta combinação impede que as células cancerosas realize a metástase em camundongos.

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A nova terapia com nanotecnologia ainda tem um longo caminho a percorrer antes de se tornar um medicamento, inclusive passando por estudos de segurança e eficácia em humanos. No entanto, “é promissor”, diz Cory Rillahan, bióloga química no Memorial Sloan Kettering Cancer Center, em Nova York, que não estava envolvida com o estudo. Rillahan, que há 3 anos fazia parte da equipe para o primeiro relatório da droga anti-metástase, conhecida como P-3Fax-Neu5Ac, diz que o composto foi desenvolvido para bloquear uma família de 20 enzimas que alteram açúcares conhecidos como ácidos siálico. Resíduos de ácido siálico muitas vezes coroam longas cadeias de moléculas de açúcar de outros compostos que estão ligados a proteínas e lipídios nas superfícies das células. Essas cadeias estão envolvidas na adesão celular e reconhecimento, os principais processos realizados por células cancerígenas metastáticas.

Vários tipos de células cancerosas expressam enzimas que adicionam resíduos de ácido siálico para cadeias de açúcar. Mas fechar estas enzimas pode ser perigoso. No ano passado, uma equipe liderada por James Paulson, um químico do Instituto de Pesquisa Scripps, em San Diego, Califórnia, que lidera o laboratório onde Rillahan fez seu trabalho sobre P-3Fax-Neu5Ac, descobriram que a droga causou danos nos rins e foi fatal em camundongos quando injetadas na corrente sanguínea. Assim, para o P-3Fax-Neu5Ac ter uma chance como uma droga anti-metástase, deve atingir as células cancerosas.

Esse é o passo que os pesquisadores liderados por Gosse Adema, um imunologista de tumores no Centro Médico da Universidade de Radboud, em Nijmegen, na Holanda, já fizeram. Em um artigo publicado on-line este mês na ACS Nano, Adema e seus colegas relatam embalagens de P-3Fax-Neu5Ac em nanopartículas, vesículas biodegradáveis feitas a partir de poli (ácido láctico-co-glicólico) ou PLGA. Essas vesículas foram revestidas com anticorpos que estão em repouso sobre uma proteína na superfície de células de melanoma (câncer no pulmão). Células de melanoma comumente realizam metástases nos pulmões. Assim, em seu estudo, Adema e seus colegas verificaram se células de melanoma se espalharam no pulmão de camundongos.

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É difícil para os pesquisadores do laboratório estudar rapidamente metástases de tumores sólidos, porque eles podem ter de esperar meses para as células cancerígenas se moverem. Então, para acelerar as coisas, a equipe de Adema dependia de um procedimento padrão de injetar células cancerosas e a droga antimetastática nas veias da cauda de camundongos e então esperavam duas semanas para ver se as células começaram a formar novos nódulos tumorais. Após 14 dias, a equipe holandesa descobriu que ratos que tinham recebido as nanovesículas carregadas de drogas desenvolveran 75% menos nódulos tumorais em seus pulmões do que ratos que receberam nanovesículas vazias.

Se esta terapia terá sucesso em seres humanos ainda é incerto, porque a maioria das drogas que trabalham em camundongos não fazem efeitos em pessoas. A síntese de cadeias de açúcares nas células, conhecida como glicosilação, é diferente entre humanos e camundongos, portanto, existem algumas modificações a serem feitas. Ainda assim, diz Paulson, a nova descoberta “abre a porta” para a perspectiva de drogas que inibem a glicosilação como uma alternativa ou complementando a estratégia para combater o câncer metastático. Essa descoberta não vai curar o câncer mas poderá ajudar os pesquisadores a aprenderem prevenir a propagação do câncer, a arma mais letal da doença.

Fonte: Science
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Guellity Marcel

Biólogo de vida selvagem, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações, ecologia do movimento, ecologia de paisagem e efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade, especialmente em áreas úmidas. Atualmente trabalha com mamíferos de médio e grande porte (cervo, veado-campeiro, veado-mateiro, queixada) e jacarés em parceria com pesquisadores da Embrapa Pantanal.

  • Diego

    Acredito que a cura do cancer é possivel!!Que sonho poder trabalhar pra ajudar nisso!!