Adaptado de Michael Farzan et al. (2015), Nature.
O vírus HIV (verde) é bloqueado pelos anticorpos eCD4-Ig.

Durante 30 anos, os pesquisadores têm se esforçado para determinar quais as melhores respostas imunes ao HIV, na tentativa de criar vacinas contra a AIDS e outras abordagens de prevenção. Agora, uma equipe de pesquisa mostrou que uma molécula feita em laboratório que imita um anticorpo do nosso sistema imunológico pode ter poder mais protetor do que qualquer coisa que o corpo produz, mantendo quatro macacos livres da infecção pelo HIV.

O QUE FOI FEITO?
Caçadas intensivas estão em andamento para localizar anticorpos naturais do HIV que podem parar-ou “neutralizar” as muitas variantes do vírus em constante mutação. Pesquisadores descobriram recentemente várias dezenas de anticorpos amplamente neutralizantes (bNAbs) que são altamente potente e trabalham em doses baixas. Mas o imunologista viral Michael Farzan do Instituto de Pesquisa Scripps, em Jupiter, Flórida, e 33 cooperadores têm tomado recentemente uma estratégia diferente, a construção de uma nova molécula com base em nosso conhecimento de como o HIV infecta as células. O HIV infecta as células brancas do sangue sequencialmente por dois receptores nas suas superfícies. Em primeiro lugar, a proteína gp120 do vírus HIV se liga ao receptor CD4 da célula hospedeira. Essa ligação torce a gp120 de tal forma que ela expõe uma região que pode se ligar ao segundo receptor da célula hospedeira, o CCR5. A nova construção da equipe de Farzan combina uma parte de CD4, com uma pitada de CCR5 em um anticorpo, o chamado eCD4-Ig, que neutralizam a ligação entre células e os vírus.

QUAIS OS RESULTADOS OBTIDOS?
Em experimentos de proveta, o eCD4-Ig superou todos os anticorpos anti-HIV naturais conhecidos, parando o vírus a partir de células infectadas, relata a equipe de Farzan na edição desta semana da revista Nature. Para testar como funciona em animais, eles colocaram o anticorpo eCD4-Ig em um vírus HIV e infectaram quatro macacos. Outros 4 macacos controles foram infectados com doses sucessivamente mais elevadas de vírus HIV. O resultado: nenhum dos animais que receberam eCD4-Ig foram infectados pelos vírus, enquanto que todos os que não receberam, foram.

O novo estudo aposta em uma abordagem de terapia de gene semelhante com anticorpos naturais que há 6 anos mostrou ser a promessa em experimentos com macacos, diz a pesquisadora Nancy Haigwood da Oregon Health & Science University, em Beaverton. “Eu sou uma grande fã deste trabalho”, diz Haigwood. “É realmente muito criativo e um grande avanço, tanto quanto eu estou preocupada.” O pediatra Philip Johnson, do Hospital Infantil da Filadélfia, na Pensilvânia, cujo laboratório em 2009 mostrou o sucesso com a terapia genética utilizando um bNAb HIV, acrescenta que o eCD4-Ig “é uma coisa bonita”.

Com base no trabalho pelo grupo de Johnson, a equipe de Farzan juntou o eCD4-Ig em um vírus adeno-associado (AAV), que é inofensivo para os seres humanos. Esses vírus, injetados em músculos de macacos, continuou a produzir eCD4-Ig durante as 40 semanas do experimento. “Todo mundo acredita que com o AAV, isso pode durar para sempre”, diz Farzan. Os animais não tiveram nenhuma resposta imune detectável contra o eCD4-Ig, presumivelmente porque ele tão semelhante quanto as partes de suas próprias células.

PERSPECTIVAS FUTURAS
Nem todo mundo está convencido de que eCD4-Ig acabará por funcionar melhor do que os anticorpos naturais do HIV, que Johnson utiliza em seus estudos. O virologista David Baltimore, ganhador do Nobel baseado no Instituto de Tecnologia da Califórnia em Pasadena, está trabalhando com um grupo desenvolvendo a sua própria terapia genética usando o AAV, que proporciona um anticorpo amplamente neutralizante bNAb para o HIV. Ele descreve o eCD4-Ig como “impressionante” e diz que ele saúda esta nova abordagem. Mas Baltimore, que como Johnson já se mudou para testes em humanos com sua terapia genética, observa que o novo trabalho oferece apenas dados de tubo de ensaio e animais. “É talvez melhor que os anticorpos naturais que estamos usando, mas ele perde em testes em humanos”, diz Baltimore. “Eu não acho que é fácil dizer como os testes  em humanos vão acontecer.”

Johnson concorda que o eCD4-Ig pode não funcionar tão bem como os anticorpos amplamente neutralizantes, os bNAbs, em seres humanos, mas também diz que esses anticorpos naturais, mesmo tendo menos potência, podem ser poderosos o suficiente para parar o HIV. “É bom o suficiente?” Johnson pergunta. “Ninguém tem a menor idéia sobre isso. A única maneira de realmente saber é fazendo testes em humanos.”

Farzan diz que em teoria será mais difícil o vírus se proliferar através do eCD4-Ig do que através do bNAb, porque o HIV precisa se ligar aos receptores das células hospedeiras CD4 e CCR5, e o eCD4-Ig inibe essas ligações. “Precisamos fazer muito mais estudos com macacos para ver se há alguma coisa estranha”, diz ele.

Fonte: Science.
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Guellity Marcel

Biólogo de vida selvagem, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações, ecologia do movimento, ecologia de paisagem e efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade, especialmente em áreas úmidas. Atualmente trabalha com mamíferos de médio e grande porte (cervo, veado-campeiro, veado-mateiro, queixada) e jacarés em parceria com pesquisadores da Embrapa Pantanal.