Esta será uma postagem diferente. Será a reprodução de uma matéria do Professor Dr. Marco Mello (UFMG) que ele fez em seu blog chamado “Sobrevivendo na Ciência” (https://marcoarmello.wordpress.com/). Lá ele escreve sobre tudo que envolva o meio científico: da Ciência propriamente dita até o interpessoal. Decidimos reproduzir a matéria intitulada, pois, torna-se uma problemática constante no meio científico: “O que fazer quando um artigo empaca?”. Sobretudo, para quem está começando a publicar e escrever trabalhos científicos em geral. Esperamos que este conteúdo seja a porta de entrada para vocês conhecerem o blog do professor e que os ajude.

“O que fazer quando um artigo empaca?” – artigo publicado no dia 06/10/2015 por Marco Mello. Acesse-o aqui.

Cumprindo uma promessa feita recentemente, resolvi escrever sobre um tema que interessa tanto aos aspiras quanto aos faixa-pretas da ciência: a dificuldade de desempacar artigos que ficaram estagnados.

Como já dizia o Prof. Magnusson, a ciência é uma cultura humana. Logo, a pesquisa é uma empreitada feita em grupo. Um cientista profissional desenvolve a grande maioria dos projetos e artigos dele em parceria com colegas. Hoje em dia, essas parcerias envolvem cada vez mais gente, muitas vezes de países diferentes. Alguns artigos oriundos de grandes programas de pesquisa chegam a ter dezenas ou mesmo centenas de autores. Como gerenciar esse monte de gente, ainda mais considerando os conflitos de interesses, gerações e culturas?

Não há uma resposta única e milagrosa. O fato é que, infelizmente, muitos artigos científicos iniciados nunca são concluídos, indo parar na Biblioteca do Sonhar. Uma parte desses trabalhos é ruim mesmo, seja por qual razão for (por exemplo, pergunta sem originalidade ou desenho amostral falho), então é melhor ficarem no limbo. Mas uma outra parte teria potencial para virar uma contribuição de verdade para a ciência, só que um ou mais autores sabotam o plano e acabam levando o trabalho para um atoleiro. Há diversas armadilhas psicológicas que podem causar isso, como vaidade, procrastinação, falha na comunicação, preguiça ou incompetência pura e simples.

Essas armadilhas são especialmente perigosas na nossa cultura latina, que não valoriza compromissos de longo prazo. Muitos empenham a palavra, aceitando participar de um artigo, e mostram grande empolgação no início, mas depois enjoam e começam a empurrar as tarefas com a barriga. Se pelo menos a maioria desses furões cancelasse formalmente o compromisso, seria menos mal. O problema é que muitos não fazem a parte que lhes cabe, mas mesmo assim querem continuar tendo o nome no trabalho.

Pior do que isso, alguns não fazem o que lhes cabe e ainda ficam magoados quando alguém toma as rédeas e toca a coisa para a frente. Há ainda os que criam ódio mortal aos colegas, quando são removidos de um artigo por não ajudarem em nada. Autoria científica não é uma questão fácil, mas alguns casos chegam a ser ridículos. Sim, lidar com pessoas não é mole, não, mas ninguém faz ciência sozinho.

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O fluxograma abaixo pode ajudá-los a tomar decisões melhores em casos de impasse:

o que fazer quando um artigo empaca

Quais são os fatores principais a se considerar?

  1. O seu grau de responsabilidade com o trabalho.

Se é um artigo derivado da sua monografia, dissertação ou tese, sinto muito, mas não existe a opção de desencanar. Se você tiver feito o trabalho usando dinheiro público, desistir é pior ainda, pois significa jogar impostos alheios no lixo. Em um país pobre e desigual como o nosso, isso deveria ser motivo de vergonha.

  1. O que está fazendo o trabalho empacar.

Se o artigo parou no meio e nunca foi submetido à publicação, tente descobrir o que deu errado. Foi uma pessoa encarregada de uma análise, que nunca entregou os resultados? Foi um orientador omisso, que está há meses com o trabalho sem nunca fazer a revisão? Foi um colaborador sênior, que na prática não ajudou em nada e nem leu o manuscrito, mas que você fica constrangido de remover da lista de autores? Tudo isso tem solução, em alguns casos mais difícil do que em outros. Agora, se o trabalho é seu e você empacou porque você é desorganizado ou incompetente, tome vergonha na cara.

  1. O quanto você se importa com o trabalho.

Pode ser que o trabalho não seja fruto de um projeto seu e que você nem ao menos seja o orientador do responsável. Em alguns casos, somos convidados a participar de trabalhos empacados, aos quais os responsáveis não dão muito valor, mas nos quais enxergamos um potencial que eles mesmos não veem. Caso te deem essa liberdade, pode valer a pena tomar as rédeas da situação. Se você optar por isso, não se esqueça de considerar pedir para se tornar pelo menos o autor correspondente. Agora, se você é “um cara lá no meio”, que não é responsável pelo trabalho e nem se importa muito com ele, para que se estressar? A maioria das colaborações pode ser considerada “exploratória”: você aceita, sente o terreno e, se notar que é uma cilada, corre, Bino! Só não vale colocar os colaboradores na friendzone acadêmica: avise que está deixando o barco.

Conselho final

Antes mesmo de começar um projeto, escolha muito bem quem você vai convidar para te ajudar e defina a priori as regras de participação e coautoria. Muita dor de cabeça seria evitada, se as pessoas colocassem mais energia nessa parte do planejamento.