Com certeza você já ouviu falar em apocalipse zumbi! Não é verdade?

Pois bem, ainda que isso pareça ficção para a nossa espécie, na natureza há algo muito semelhante acontecendo há milhares de anos. Os responsáveis por isso? Fungos do gênero Cordyceps, que atualmente conta com mais de 400 espécies já conhecidas pela ciência.

Esses fungos tem uma distribuição ampla pelo mundo, ocorrendo principalmente em florestas tropicais úmidas. Entretanto, a maioria das espécies habitam grande parte da Ásia. Por lá, muitos até são comestíveis ou utilizados na medicina tradicional.

Segundo pesquisadores, cada espécie de fungo parasita uma espécie específica de artrópode, como aranhas, formigas, grilos, gafanhotos, mariposas e dentre outras, transformando-as praticamente em zumbis.

Eles afetam o sistema nervoso central de suas vítimas, fazendo com que se desloquem à procura de locais bem ventilados e úmidos que favoreçam a reprodução do fungo.

A vítima se fixa no local e fica parada enquanto o fungo se desenvolve e a consome viva.

A incubação pode demorar até 3 semanas e então o fungo lança seus esporos, infectando outros indivíduos da mesma espécie.

Estes fungos são tão virulentos que podem, por exemplo, devastar colônias inteiras de formigas.

Ainda que pareça devastador, o Cordyceps tem uma grande importância ecológica.

Afetando espécies mais abundantes na floresta, o fungo impede que elas dominem o ambiente, permitindo a coexistência entre várias espécies de artrópodes.

Sem a presença do fungo, espécies que competem melhor por recursos poderiam eliminar as competidoras inferiores, reduzindo a diversidade local.

Ou seja, os fungos Cordyceps ajudam a manter a diversidade de artrópodes nas florestas.

Além disso, estes fungos também tem importância grandiosa na medicina. Muitas espécies tem sido estudadas e revelaram propriedades promissoras em relação ao câncer e pacientes com resistência a insulina.

Estes organismos tem se destacando tanto, por sua proeza em controlar algumas espécies, que até mesmo inspirou o jogo The Last Of Us, em que uma determinada espécie de Cordyceps parasita humanos e os transforma em zumbis.

E isso tem gerado uma grande curiosidade nos curiosos. Será que esse fungo poderia realmente parasitar humanos?

Bom, todos os dias somos bombardeados constantemente por milhares de esporos de uma gigantesca quantidade de espécies de fungos, e não somos infectados gravemente por nenhum. O que explica parte de nossa resistência à todos estes fungos, e também  ao Cordyceps, é o fato de sermos animais de sangue quente e de nosso sistema imune ter evoluído em meio aos fungos. Nós somos imunes a eles!

E se por acaso injetassem uma grande quantidade de esporos na corrente sanguínea de uma pessoa, a morte seria causada provavelmente por septisemia ou até mesmo por hemorragia interna.

Mas você pode me perguntar: mas porque alguns fungos nos infectam nos pés?

É simples. As extremidades do corpo são bem mais frias e o sangue circula em uma quantidade bem inferior quanto ao restante do corpo, o que dificulta que em locais como as unhas ou entre os dedos dos pés nosso sistema imunológico aja com eficiência, já que são áreas com pouquíssima irrigação.

Não existem relatos de Cordyceps parasitando nenhuma espécie de mamífero. Contrariando as expectativas de alguns, além da importância ecológica, estes fungos salvam vidas e não vão provocar um apocalipse zumbi humano tão cedo!

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Guellity Marcel

Biólogo de vida selvagem, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações, ecologia do movimento, ecologia de paisagem e efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade, especialmente em áreas úmidas. Atualmente trabalha com mamíferos de médio e grande porte (cervo, veado-campeiro, veado-mateiro, queixada) e jacarés em parceria com pesquisadores da Embrapa Pantanal.