Sophia Spencer, de sete anos de idade, adora tanto os insetos, que até cortou o cabelo para que não atrapalhasse enquanto os coletava.

Ela mantém mais de uma dúzia de gafanhotos como animais de estimação em um balde de dinossauro em casa. No ano passado, seus animais favoritos eram caracóis, e no ano anterior ela estava fascinada com vermes e formigas.

Depois de mudar-se de Sarnia para Alexandria, em Ontário, e trocar as escolas, a obsessão com os insetos a separou das outras crianças e fez dela motivo de piadas cruéis, de acordo com a mãe, Nicole.

As provocações começaram no primeiro dia da escola. Sophia estava carregando uma lagarta e conversando com ela, como ela sempre faz, quando uma menina disse: “Você é estranha. Você não deveria estar brincando com insetos.”

O bullying só piorou, disse Nicole. Quando Sophia trouxe outra lagarta para mostrar aos colegas, um garoto pediu para vê-la – depois pisou nela.

“Ninguém se aproximava dela”, disse a mãe.

Sophia é uma exploradora nata. Foto: Patrick Doyle.

Ela notificou os professores de Sophia mas nada mudou, disse ela. O bullying afetou tanto a confiança de sua filha, que ela escreveu um email sincero para a Entomological Society of Canada. Ela pediu à sociedade que organizasse um bate-papo entre Sophia e um especialista em insetos, que incentivasse seu amor por esses animais.

“Eu quero que ela saiba por um especialista que ela não é estranha por amar insetos”, escreveu Nicole.

O email chegou até Morgan Jackson, voluntário da mídia social da sociedade entomológica e um estudante de doutorado em entomologia na Universidade de Guelph.

“Eu estava com o coração partido”, lembrou ele. “Eu não gosto de ouvir sobre alguém intimidado, especialmente sobre algo sobre o qual eu sou tão apaixonado”. Jackson estuda mosquito-palha, que são nativos de climas tropicais.

Nicole sempre apoiou a paixão da filha. Foto: Patrick Doyle.

Ele postou o e-mail no Twitter, onde chamou a atenção dos entomologistas do Reino Unido à Austrália.

Na tarde de sexta-feira, mais de uma centena de pessoas concordaram em ser seu amigo, disse Jackson. Alguns ofereceram tours de laboratório, equipamentos e livros sobre insetos. A discussão das redes sociais assumiu vida própria através da hashtag #BugsR4Girls, onde entomólogos do mundo todo tem divulgado palavras de encorajamento e imagens de si mesmos com os mais diferentes insetos.

“Eu fui inspirado por entomologistas femininas brilhantes e espero que eu possa fazer o mesmo por outros”, disse Ashleigh Whifflin, assistente de curadoria de entomologia nos Museus Nacionais da Escócia, juntamente com uma imagem de uma lagarta verde.

Maggie Hardy, uma bioquímica na Universidade de Queensland, na Austrália, publicou fotos de si mesma com uma tarântula, dizendo que ela tem “o melhor trabalho do mundo”.

Todas as mensagens de apoio para Sophia elevaram sua autoestima e a fizeram se sentir “famosa”, disse a mãe.

Ela diz que escreveu para a sociedade entomológica porque queria que sua filha soubesse que não estava sozinha. “Eu queria que ela visse que não era só eu quem pensava que ela era tão legal e perfeita do jeito que ela era”, disse ela.

Hoje em dia, Sophia está de volta, preocupada com os insetos, disse Nicole. Depois de parar de procurar insetos após ser provocada na escola, ela voltou ao seu hobby e ensinou a irmãzinha de sua melhor amiga a arte de caçar essas criaturas.

Nicole planeja transferir sua filha para uma escola diferente, “que a aceitam por seus caminhos de entomóloga”, disse ela.

Em uma conversa muito curta com o jornal TheStart, Sophia disse que já não tem mais vergonha de sua paixão.

“Eu me sinto muito agradável e especial”, disse ela.

A resposta foi tão fascinante, que Morgan Jackson analisou o caso como exemplo de como deve ser comunicada a pesquisa e divulgação científica para que conscientize o grande público, o que deu origem a um artigo científico. O estudo de Jackson acaba de ser publicado na revista Annals of the Entomological Society of America. Seu exame de comunicação científica em redes sociais é muito sério, mas a melhor parte é a que foi escrita pela própria Sophia:

Meus bichos favoritos são os caracóis, as lesmas e as lagartas, mas sobretudo os grilos. No ano passado encontrei meu melhor amigo bicho. Seu nome é Hoppers.

Após minha mãe enviar essa carta e me mostrar as respostas fiquei muito contente. É muito bom saber que há tantas pessoas que me apóiam e é muito legal saber que há outras meninas que estudam bichos. Isso me faz pensar que eu também posso me dedicar a isso. Definitivamente quero estudar bichos quando for maior, provavelmente grilos.

Alguém me enviou um microscópio e o levei à escola. Agora meus colegas trazem insetos quando os encontram para vermos no microscópio. Acho que outras garotas que leram a história agora também querem estudar bichinhos.

Morgan Jackson e Sophia Spencer.

Fonte: TheStar.

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Guellity Marcel
Biólogo de vida selvagem, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações, ecologia do movimento, ecologia de paisagem e efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade, especialmente em áreas úmidas. Atualmente trabalha com mamíferos de médio e grande porte (cervo, veado-campeiro, veado-mateiro, queixada) e jacarés em parceria com pesquisadores da Embrapa Pantanal.