Estima-se que existam na Terra milhões de diferentes tipos de organismos vivos
compartilhando a biosfera. O reconhecimento dessas espécies está intimamente relacionado à história do homem.

Num determinado momento da história evolutiva, o homem começou a utilizar animais e plantas para sua alimentação, cura de doenças, fabricação de armas, objetos agrícolas e abrigo. A necessidade de transmitir as experiências adquiridas para os descendentes forçou-o a denominar plantas e animais. O documento zoológico mais antigo que se tem notícia, é um trabalho grego de medicina, do século V a.C., que continha uma classificação simples dos animais comestíveis, principalmente peixes.

Assim, a classificação dos seres vivos surgiu com a própria necessidade do homem em reconhecê-los. O grande número de espécies viventes levou-o a organizá-las de forma a facilitar a identificação e, conseqüentemente, seu uso.

A classificação dos seres vivos

Inicialmente, com base no modo de vida, direção da evolução e tipo da organização
de seu corpo, os seres vivos foram divididos em dois grandes reinos: Animal e Vegetal. Mais tarde, como o desenvolvimento do microscópio, entre outras técnicas, tornou-se óbvio que muitos organismos não se encaixavam em nenhum desses reinos, por exemplo uma bactéria, que é um organismo unicelular, desprovido de envoltório nuclear e de estruturas
membranosas intracelulares como retículo endoplasmático, mitocôndrias, cloroplastos e
complexo de Golgi. Essas diferenças que a distingue dos demais organismos é bem mais
fundamental que as diferenças entre animais e vegetais.

Outro sistema proposto, e também não mais utilizado, foi o de três reinos: Protista, Plantae e Animalia. Nesse sistema, reuniam-se no reino Protista organismos com características vegetais e animais.

Posteriormente, surgiu um novo sistema de classificação agrupando os organismos em quatro reinos: Monera (bactérias e cianofíceas), Protista (demais algas, protozoários e fungos), Plantae ou Metaphyta (desde briófitas até as angiospermas) e Animalia ou
Metazoa (desde espongiários até mamíferos).

Um sistema de classificação mais recente, compreende cinco reinos e foi proposto por Whittaker (1969). É composto por um reino procariótico, Monera, e outros quatro reinos eucarióticos. Dos grupos eucarióticos, acredita-se que o Protista deu origem aos outros três grupos restantes (Plantae, Animalia e Fungi). Tais grupos, na maioria multicelulares, diferem fundamentalmente no seu modo nutricional.

Divisão dos seres vivos em 5 reinos proposta por Whittaker (1969).

O reino Monera é constituído por organismos unicelulares procariotos, coloniais ou não, autótrofos ou heterótrofos. Engloba as bactérias e cianofíceas (cianobactérias). Organismos unicelulares eucariotos, coloniais ou não, constituem o reino Protista. Neste, existem diversos métodos nutricionais, incluindo a fotossíntese, a absorção e a ingestão. Compreende as algas unicelulares e os protozoários.

O reino Fungi é composto por organismos eucariotos heterotróficos, geralmente multinucleados (cenocíticos), sendo sua nutrição realizada por absorção.

Os organismos eucariotos fotossintetizantes (autótrofos) multicelulares compõem o reino Plantae, que compreende desde algas multicelulares até vegetais superiores. O reino Animalia é composto por organismos eucaritos multicelulares heterotróficos, que têm a ingestão, ou absorção em alguns casos, como forma primária de nutrição. Engloba desde as esponjas até o homem.

É claro que qualquer sistema de classificação apresenta muitas dificuldades, pois os seres vivos se modificam e evoluem ao longo do tempo e ainda, com o avanço da ciência, surgem novas descobertas a respeito das relações existentes entre os organismos. Todavia, o sistema de classificação proposto por Whittaker é, ainda hoje, o mais aceito e utilizado.

A tabela abaixo resume as características dos grandes grupos de organismos:

A Sistemática

O estudo descritivo de todas as espécies de seres vivos e sua classificação dentro de uma verdadeira hierarquia de grupamentos constitui a sistemática ou taxonomia. Vamos começar a interpretar o papel da taxonomia revendo o conceito de espécie.

O Conceito de Espécie

Species em latim significa simplesmente “tipo“. As espécies são, no sentido mais simples, os diferentes tipos de organismos. Uma definição mais técnica de espécie é:

“um grupo de organismos que se cruzam entre si, sem normalmente cruzar-se com representantes de outros grupos”.

Os organismos pertencentes a uma espécie devem apresentar semelhanças estruturais e funcionais, similaridades bioquímicas e mesmo cariótipo, além da capacidade de reprodução entre si. A definição acima, embora útil para os animais, não é, entretanto, útil na taxonomia vegetal, porque cruzamentos férteis podem ocorrer entre plantas de tipos bastante diferentes. Também não se aplica esta distinção a organismos que não se reproduzem sexualmente.

À luz da teoria evolucionista, observa-se que uma espécie se modifica constantemente, no espaço e no tempo, em vez de ser uma forma imutável, ideal, como foi concebida por Lineu. Desta maneira, a palavra “espécie” possui diferentes significados para diferentes tipos de organismos, o que não é surpresa se considerarmos que a evolução nos vários grupos de organismos seguiu caminhos diversificados. No entanto, o termo permanece sendo útil e possibilita uma maneira adequada de se referir a organismos e catalogá-los.

Outros Grupos Taxonômicos

O reino é a maior unidade usada em classificação biológica. Entre o nível do reino e do gênero, entretanto, Lineu e taxonomistas posteriores adicionaram diversas categorias (ou taxa). Temos então, os gêneros agrupados em famílias, as famílias em ordens, as ordens em classes e as classes em filos (ou divisão, para os botânicos), seguindo um padrão hierárquico. Essas categorias podem ser subdivididas ou agregadas em várias outras, menos importantes, como, por exemplo, os subgêneros e as superfamílias.

Assim, hierarquicamente, temos:

Regras de Nomenclatura

Os animais, assim como as plantas, são popularmente conhecidos por nomes muito variáveis de um lugar para outro. Numa tentativa de universalizar os nomes de animais e plantas, os cientistas têm, há muito, procurado criar uma nomenclatura internacional para a designação dos seres vivos. Mark Catesby, por volta de 1740, publicou um livro de zoologia onde denominava o pássaro conhecido como tordo (sabiá americano) de Turdus minor cinereoalbus non maculatus, que significava: “tordo pequeno branco-acinzentado sem manchas”. Essa foi uma tentativa de padronizar o nome do pássaro, para que ele pudesse ser conhecido em qualquer idioma ou região, mas havia o inconveniente de usar uma denominação muito extensa.

Em 1735, o sueco Carl von Linné, botânico e médico, conhecido simplesmente por Lineu, lançou seu livro Systema Naturae, no qual propôs regras para classificar e denominar animais e plantas. Porém, foi somente na 10a edição do seu livro, em 1758, que ele sugeriu uma nomenclatura mais simples, onde cada organismo seria conhecido por dois nomes apenas, seguidos e inseparáveis.

Surgiu assim a nomenclatura binomial, a qual é ainda hoje utilizada. As regras para a denominação científica dos seres vivos foram firmadas posteriormente, no I Congresso Internacional de Nomenclatura Científica, em 1898. A denominação científica dos animais segue certas regras definidas, as quais são esboçadas no Código Internacional de Nomenclatura Zoológica.

Nomes científicos são latinizados, mas podem ser derivados de qualquer outra língua ou de nomes de pessoas ou lugares; a maioria dos nomes é derivada de palavras latinas ou gregas e geralmente refere-se a alguma característica do animal ou do grupo denominado. Por convenção, os nomes genéricos e específicos são latinizados, enquanto o nome das famílias, ordens, classes e outras categorias não o são, embora tenham letra inicial maiúscula. As principais regras da nomenclatura científica estão resumidas a seguir:

  • Na designação científica os nomes devem ser em latim de origem ou, então, latinizados.
  • Todo nome científico deve estar destacado no texto. Pode ser escrito em itálico, se for impresso, ou sublinhado se for em trabalhos manuscritos.
  • Cada organismo deve ser reconhecido por uma designação binomial, sendo o primeiro termo para designar o seu gênero e o segundo, a sua espécie. Considera-se um erro grave usar o nome da espécie isoladamente, sem ser antecedido pelo gênero.
  • O nome relativo ao gênero deve ser um substantivo simples ou composto, escrito com
    inicial maiúscula.
  • O nome relativo à espécie deve ser um adjetivo escrito com inicial minúscula, salvo raríssimas exceções: nos casos de denominação específica em homenagem a pessoa célebre. Por exemplo no Brasil, há quem escreva: Trypanosoma cruzi, já que o termo Cruzi é a transliteração latina do nome de Oswaldo Cruz, uma homenagem a esse grande sanitarista brasileiro.
  • Em trabalhos científicos, após o nome do organismo é colocado, por extenso ou abreviadamente, o nome do autor que primeiro descreveu e denominou, sem qualquer pontuação intermediária, seguindo-se depois uma vírgula e data da primeira publicação.

Exemplos:

Cachorro: Canis familiaris Lineu ou L., 1758.
Ancilóstoma: Ancylostoma duodenale Creplin ou C., 1845.

  • A designação para espécies é binomial, mas para subespécies é trinomial. Por exemplo:

Mycobacterium tuberculosis hominis (tuberculose humana)
Mycobacterium tuberculosis bovis (tuberculose bovina)
Mycobacterium tuberculosis avis (tuberculose aviária)

Em zoologia, a família é denominada pela adição do sufixo idae ao radical correspondente ao nome do gênero-tipo (gênero mais característico da família). Para subfamília, o radical adotado é inae. Exemplos:

Gato – gênero: Felis; família: Felidae; sufamília: Felinae.
Cascavel – gênero: Crotalus; família: Crotalidae; sufamília: Crotalinae.

Lei da prioridade: Se diversos autores denominarem um mesmo organismo
diferentemente, prevalece sempre aquela mais antiga, ou seja, a primeira denominação.

A substituição de nomes científicos é permitida somente em casos excepcionais, adotando para esses casos uma notação especial, já convencionada, que indica tratar-se de espécime reclassificado. Desta forma, se a posição sistemática de um organismo é modificada, o nome científico deve assumir a seguinte forma: menciona-se o nome do organismo já no novo gênero e, a seguir, entre parênteses, o nome do primeiro autor e a data em que a denominou; só então, fora dos parênteses, coloca-se o nome do segundo autor e a data em que reclassificou o espécime.

Assim, a denominação da formiga saúva Atta sexdans (Lineu, 1758) Fabricius, 1804, indica que Fabricius mudou de gênero o animal inicialmente descrito e “batizado” por Lineu.

Ao publicar a descrição de uma nova espécie, é prática comum designar um espécime-tipo, descrevê-lo e indicar em que coleção foi colocado.

Esse texto é uma reprodução na íntegra da apostila Noções de Taxonomia e Classificação: Introdução à Zoologia, desenvolvida pelas professoras Ana Paula Ulian de Araújo e Nelma Regina Segnini Bossolan, do curso de Licenciatura em Ciências Exatas do Instituto de Física da USP.

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Guellity Marcel

Biólogo de vida selvagem, mestre em Ecologia e Conservação e apaixonado por ciência e tecnologia. Tem interesse em ecologia de populações, ecologia do movimento, ecologia de paisagem e efeitos de mudanças climáticas na biodiversidade, especialmente em áreas úmidas. Atualmente trabalha com mamíferos de médio e grande porte (cervo, veado-campeiro, veado-mateiro, queixada) e jacarés em parceria com pesquisadores da Embrapa Pantanal.