Eles diferem em muito dos demais representantes da ordem a qual pertencem: são miniaturizados, medem menos de 2,5 cm, apresentam redução no número e tamanho dos dígitos e exibem desenvolvimento direto (sem passar pela fase de girino). De hábito predominantemente diurno, alguns apresentam coloração aposemática (que funciona como um “aviso” para eventuais predadores, de que possuem toxinas, como a Tetrodotoxina, a mesma neurotoxina presente nos baiacus).

Ok, chega de mistério! Estamos falando do gênero de anuros Brachycephalus! … O quê? Como assim, nunca ouviu falar deles?! As espécies deste gênero estão entre os menores vertebrados terrestres do mundo!

Brachycephalus curupira. Foto: Luiz Fernando Ribeiro.
Brachycephalus coloratus. Foto: Luiz Fernando Ribeiro.

Ah tudo bem, a gente entende! Afinal, o gênero permaneceu monotípico (apenas uma espécie) por quase cem anos, desde que a primeira espécie, B. ephippium (Spix, 1824) foi descrita. Então, nos últimos dez anos, 22 espécies, das 34 que compõem o gênero, foram descobertas e descritas, através do esforço de diversas instituições e pesquisadores brasileiros.

Filogeneticamente o gênero é dividido em três clados, com base na presença ou ausência de co-ossificação dérmica e forma do corpo, sendo estes os grupos ephippium, didactylus e pernix. Os relacionamentos entre eles estão bem estabelecidos, mas ainda existem incertezas quanto às relações dentro de cada um dos clados.

Certo, devidamente apresentados, precisamos conversar sobre um aspecto que os torna tão interessantes, mas também extremamente ameaçados. A maioria das espécies de Brachycephalus exibe um alto nível de microendemismo, com algumas delas sendo encontradas apenas em montanhas específicas ao longo da Mata Atlântica, o que parece ser uma evidência de que a diversidade das espécies tem relação direta com características geográficas e topográficas de seus habitats. O bioma da Mata Atlântica pode ser dividido em oito tipos de relevo, com três deles de regiões de altitudes mais altas: os planaltos, as serras e as escarpas, sendo as montanhas mais altas do bioma, a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar. Estas regiões, com condições climáticas mais frias e úmidas, podem ter contribuído para a distribuição das espécies de Brachycephalus, que apresentam pequena capacidade de dispersão, pois atuaram como refúgio para remanescentes de populações durante períodos mais quentes no Quaternário.

De forma metafórica, as montanhas são como “ilhas” de um “arquipélago”, que é a Mata Atlântica. A essa altura todo mundo já imaginou o que pode acontecer com estas espécies se as montanhas, extremamente específicas nas quais habitam, tenham sua cobertura vegetal suprimida. Exatamente! Qualquer tipo de distúrbio, natural ou antrópico, pode extinguir uma população inteira, e, se tratando de uma espécie microendêmica, isto pode significar a extinção de toda a espécie!

É aqui que entram os esforços dos pesquisadores, através de expedições nestas montanhas de altitudes elevadas com o intuito de coletar e descrever novas espécies, além de compreender seus padrões ecológicos e biogeográficos, para que possam ser incluídas em programas conservacionistas. Dentre as várias equipes que se dedicam ao estudo dos Brachycephalus, estão a do Laboratório de Dinâmica Evolutiva e Sistemas Complexos, da Universidade Federal do Paraná e o Instituto de Estudos Ambientais Mater Natura, de Curitiba. A descoberta mais recente, publicada em julho deste ano por biólogos destas instituições, em parceria com pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Universidade Estadual Paulista e Universidade da Flórida, foi a de duas espécies pertencentes ao grupo pernix, B. coloratus e B. curupira, na região de Mata Atlântica do estado do Paraná, em altitudes de 1.144-1228 m e 1.095-1.320 m acima do nível do mar, respectivamente. A descrição se deu através de um conjunto de informações, tais como padrões de cores, caracteres morfológicos, distâncias genéticas e relações filogenéticas.

Quem ficou interessado (tem como não ficar?!) nas pesquisas com o gênero, pode conhecer a distribuição geográfica e de altitudes das espécies ao longo da Mata Atlântica (https://peerj.com/articles/2490.pdf) e dar uma olhada em outras descrições publicadas recentemente na Revista Científica PeerJ.

· Seven new microendemic species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Southern Brazil (https://peerj.com/articles/1011.pdf).

· A new species of Brachycephalus (Anura: Brachycephalidae) from Santa Catarina, Southern Brazil (https://peerj.com/articles/2629.pdf).

O site do Laboratório de Dinâmica Evolutiva e Sistemas Complexos, da Universidade Federal do Paraná, conduzido pelo Prof. Marcio Pie, um dos biólogos que se dedica ao estudo deste gênero, também contém informações sobre eles (https://piegroup.wordpress.com/).

Divulgações na mídia das espécies descobertas:

Caçador de sapos do Paraná descobre oito espécies no sul do Brasil

Cientistas descobrem duas novas espécies de sapinhos-da-montanha – os minúsculos anfíbios do sul do Brasil

Menores que a ponta do lápis: duas novas espécies de sapos descobertas no Paraná

Pesquisadores descobrem novas espécies de sapos em área Paranaense de Mata Atlântica

Se ainda assim você não conseguir saciar sua curiosidade por estes pequenos anuros microendêmicos, que tal se unir aos zoólogos nesta jornada pela procura, descrição e conservação dos Brachycephalus? (requisito importante: curtir montanhismo!).

Quantas espécies mais não estão “esperando” para serem descobertas e apresentadas ao mundo?!

Um agradecimento especial ao Biólogo e Mestrando do Programa de Zoologia, da Universidade Federal do Paraná, André Confetti, pela revisão do post.

Dúvidas também poderão ser sanadas com ele (confetti91@gmail.com)!