As formigas desempenham muitos dos tipos de trabalhos que normalmente pensamos ser exclusivos de humanos – são arquitetas, agricultoras e podem dominar outras espécies para obter vantagens. Agora, os cientistas estão adicionando mais uma ocupação a essa lista: químico.

Um estudo novo mostra que as formigas-da-madeira protegem suas colônias de doenças produzindo um coquetel antibiótico potente, usando a resina de uma árvore e o veneno de seus próprios corpos. A descoberta, um dos exemplos mais sofisticados de farmacologia animal, pode explicar como algumas formigas evitam epidemias.

Como os seres humanos, a formiga-da-madeira (Formica paralugubris) vivem em grupos densos, com colônias numeradas em centenas de milhares de indivíduos. Isso as torna alvos para doenças generalizada, especialmente porque seus ninhos são quentes, úmidos e cheios de insetos mortos para ser usado como alimento.

Foto: Simon Williams / Minden

A maioria das espécies de formigas conseguem evitar as epidemias, preparando-se mutuamente e limpando obsessivamente suas colônias, e as formigas-da-madeira tomam a precaução adicional de coletar resina de árvore antimicrobiana, levando-a aos seus ninhos. Mas Michel Chapuisat, biólogo evolucionista da Universidade de Lausanne, na Suíça, suspeitava que esta espécie estivesse escondendo um segredo ainda mais sofisticado para se manter saudável.

Para investigar, Chapuisat e seus colegas mediram primeiro quão bem a resina exposta a formigas protegia um fungo mortal – que infecta formigas e se espalha através de esporos cultivados em seus corpos – em comparação com a resina de árvore sozinha.

Em placas de Petri cobertas com o fungo (Metarhizium brunneum), a resina armazenada com as formigas durante 2 semanas resultou em uma área livre de fungos 50% maior, a equipe relatou na revista Ecology and Evolution. Pedras e galhos, ambos comuns em ninhos, não tinham qualquer sinal antifúngico. Isso era uma indicação de que algo especial estava acontecendo entre as formigas e a resina.

Em seguida, os pesquisadores utilizaram a cromatografia líquida, uma técnica para analisar misturas químicas, para detectar qualquer substância deixada para trás pelas formigas. Um composto que encontraram foi o ácido fórmico: uma substância cáustica produzida por várias espécies de formigas para combater ameaças, subjugar presas e limpar sua prole.

Quando os cientistas mergulharam a resina da árvore no ácido, observaram que a mistura resultante combateu melhor o fungo se comparado a resina sozinha ou ao ácido fórmico sozinhos. Isso foi suficiente para os pesquisadores confirmarem que as formigas estão misturando as duas substâncias – uma encontrada, outra criada – para manter seus ninhos saudáveis. “Elas exploram a árvore e depois a combinam com seu próprio veneno”, explica Chapuisat.

Muitos animais se defendem com substâncias que encontram ou criam, mas Michael Singer, ecólogo evolucionista da Wesleyan University, diz que esta nova substância apresenta efeitos sinérgicos únicos, o que significa que a mistura de resina e ácido fórmico é mais do que apenas a soma de suas partes. O único outro exemplo de um animal preparando uma combinação como essa – que Singer chama de “mixologia defensiva” – é o homem e os nossos coqueteis de drogas.

Mas em vez de brotar repentinamente da mente de um brilhante inventor humano, essa mistura é o resultado de um longo conflito evolutivo. “As formigas têm cooperado com os seus agentes patogênicos há 50 milhões de anos”, e talvez mais, diz Christopher Pull, um biólogo evolutivo do Instituto de Ciência e Tecnologia da Áustria em Klosterneuberg.

Com questões como a resistência a antibióticos fazendo drogas humanas se tornarem menos eficazes, Pull diz que a estratégia das formigas pode ser observada por mais tempo e pode valer a pena sob um olhar mais atento. “Talvez elas tenham soluções viáveis ​​para esses problemas que estamos enfrentando.”

Fonte: Science / Patrick Monahan.